Xadrez em Nova York

Esta é uma tradução do artigo "New York chess fans take the game to the streets", escrito por Sharene Azimi e publicado com autorização.

Eles fazem nos bancos da praça. Fazem em cima de caixas. Fazem até de pé.

Em Nova York, os aficcionados por xadrez levam o jogo para as ruas.

A meca do xadrez outdoor em Nova York é o Washington Square Park, no coração de Greenwich Village, onde o campeão mundial Bobby Fischer iniciou sua carreira nos anos 50. Mas um projeto para reformar o parque pode deixar o famoso "círculo do xadrez" irreconhecível para milhares de turistas que vão visitar o local imortalizado na televisão e em filmes.

Fãs de xadrez que quiserem jogar nas velhas mesas de pedra devem vir logo a Nova York, pois o início da reforma pode começar assim que algumas pendências judiciais forem resolvidas. Após isso, quem quiser jogar poderá procurar outras opções na cidade.

Washington Square tem sido há muito tempo o lar do jogo de rua, onde o jogador (vamos chamá-lo de apostador), geralmente um sem-teto, convida os visitantes a jogar o "speed chess", também conhecido como "blitz chess" ou "xadrez-relâmpago", por 5 dólares a partida. Cada jogador começa com cinco minutos no relógio; após cada jogada, a contagem regressiva é pausada. Se não houver cheque-mate, quem esgotar o tempo, perde.

Numa recente tarde de primavera, um jogador de rua enfrentava um jovem bem-vestido que se curvava sobre a mesa estudando os seus movimentos.

"Trata-se de gerenciamento de tempo", disse o apostador aos expectadores, interrompendo a conversa apenas para olhar o tabuleiro e fazer suas jogadas rápidas. Ele tinha usado 30 segundos dos seus cinco minutos; o desafiante tinha menos de três minutos sobrando.

Os segundos piscavam no relógio digital quando o jovem parou a contagem com um segundo para a próxima jogada.

"Estou com problemas", resmungou.

"Não se preocupe com o tempo", disse o jogador de rua. "Serei bonzinho. Você pode fazer mais uma jogada".

O rapaz jogou e perdeu, passando os 5 dólares ao apostador que lhe sugeriu jogar outra partida.

De acordo com Mig Greengard, um colega de Gary Kasparov que escreve um boletim eletrônico semanal para no site ChessNinja.com, o jogador de rua sempre ganha, mas ele faz parecer possível que o desafiante possa vencer --- seduzindo as pessoas a tentarem novamente.

"Se estiverem jogando pelo dinheiro da comida, não há brincadeira", Greengard disse. "É sede de sangue".

Jogadores que quiserem testar suas chances contra os jogadores de rua, tem duas outras opções em Manhattan. O Tompkins Square Park, no East Village, tem sido melhorado desde seus dias de abrigo para mendigos, mas ainda atrai uma população meio estranha. O Liberty Plaza, no lower Broadway no Financial District, geralmente atrai executivos no horário do almoço.

Aqueles que procuram um ambiente de jogo mais supervisionado podem se sentar no Bryant Park, em midtown, onde o New York Chess & Backgammon Club aluga jogos de xadrez a 3 dólares por meia-hora. Ao longo dos gramados da biblioteca pública, funcionários dos escritórios se enfrentam enquanto seus colegas os observam mastigando seus sanduíches.

Mais ao norte, no Upper West Side, fãs do xadrez levam a coisa a sério. Nas calçadas da Broadway é comum ver dois homens sentados em engradados de leite, curvados sobre uma caixa de papelão, jogando seu xadrez sem ligar para os carros, cachorros e pedestres em volta deles. Se algum dos jogadores é um vendedor de rua, dificilmente interromperá o jogo para vender um livro.

Às vezes os oponentes num jogo de xadrez nem sequer estão sentados um à frente do outro. No Columbus Circle, na entrada do Central Park, as pessoas ficam de pé embaixo do sol para desafiar um homem que monta uma mesa com uma só cadeira, a dele.

Não importa em que rua o xadrez é jogado, não importa quão ricos ou pobres os jogadores são, o denominador comum é a obssessão pelo jogo.

"Se torna uma coisa viciante", diz Eric Whitsett, que ensina xadrez nas mesas do Washington Square Park. Whitsett alega ter jogado uma vez por virtualmente 72 horas sem parar. "Sua mente entra numa escola analítica. Ela aprende a amar isso".